Brasília - Embalado pela popularidade do presidente Lula e pelo crescimento da ministra Dilma Rousseff nas pesquisas eleitorais, o PT apresentou nos últimos três dias as armas que irá utilizar para se manter no poder. O congresso nacional do partido em Brasília consolidou a estratégia de estabelecer uma eleição polarizada, entre a “esquerda progressista” e a “direita privatista”. Na reunião, os petistas aprovaram as diretrizes de um programa de governo para Dilma com um viés estatizante e, ao mesmo tempo, referendaram um plano tático eleitoral bem mais pragmático do que ideológico para isolar o bloco PSDB/DEM/PPS.Batizado de “A Grande Transformação”, as propostas para o futuro programa de governo do PT foram redigidas pelo assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia. O texto defende o fortalecimento do papel do Estado na economia, a defesa das empresas públicas e o crescimento dos programas de crédito mantidos por órgãos públicos como o Banco Nacional de Desenvolvimento Social, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. Na mesma linha de esquerda, o documento apoia a proposta de redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais e a intensificação dos assentamentos de trabalhadores rurais sem-terra.
Questionado sobre o caráter ideológico das propostas várias vezes durante o congresso, Garcia evitou o aprofundamento da discussão. “Eu vejo (as diretrizes) como uma continuidade e um aprofundamento do que o governo tem feito. Não mais à esquerda, nem mais à direita.”
Segundo ele, rotular o programa ou a candidatura de Dilma como mais socialista do que o governo Lula é apenas um jogo utilizado pela oposição para provocar medo em setores da sociedade. Após a aprovação das diretrizes, na sexta-feira, o presidente do partido, José Eduardo Dutra, reiterou a posição de Garcia. “Se a oposição diz que nem na China tem estatização, que essa é uma proposta chavista, tem que dizer claramente qual é a sua posição. (...) Mas quando formos falar de privatizar, não venham dizer que estamos fazendo terrorismo.”
O cientista político Ladislau Dowbor, professor da PUC-SP, também concorda que o tema está mais ligado ao discurso eleitoral do que à prática. Segundo ele, a estratégia de aliar a distribuição de renda com o crescimento da economia por meio de programas sociais como o Bolsa Família não será alterada por qualquer que seja o vencedor de disputa presidencial. “Estamos falando de um dispositivo econômico que deu certo para o conjunto da sociedade e não de uma proposta necessariamente de direita ou esquerda. Não vejo espaço na atual conjuntura política brasileira para uma revolução ideológica nesse sentido.”
Alianças liberadas
O mesmo conjunto de resoluções que dá diretrizes de esquerda ao plano de governo de Dilma também libera o partido para buscar alianças com legendas de centro e privilegia as eleições nacionais em relação às estaduais. Os dois pontos foram questionados durante o congresso, mas mantidos por decisão da maioria dos delegados. Um dos questionamentos partiu do deputado federal José Genoino, que sugeriu uma emenda que incluiria textualmente o PMDB nos objetivos de aliança do PT.
Os dois partidos fecharam há cinco meses um pré-acordo para as eleições de outubro em que os peemedebistas terão direito a indicar o candidato a vice-presidente de Dilma Rousseff. “Queremos alianças, mas não queremos tratar diferencialmente nenhum partido”, justificou o ex-presidente petista Ricardo Berzoini. Ele conseguiu convencer os demais colegas a não alterar o texto.
A iniciativa está longe de ser um recado ao PMDB, que terá direito de opinar nas diretrizes do programa de governo. Também por essa influência, o posicionamento inicialmente mais estatizante do documento seria uma maneira de “salvar” alguns conceitos petistas de cortes após as modificações finais. Além disso, a política de alianças tenta unificar todos os 14 partidos que compõem a base aliada de Lula – além do PMDB, PSC, PTC, PT, PSB, PDT, PC do B, PMN, PHS, PRB, PR, PP, PTB e PV.