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Falha de regulação deixa o sistema elétrico exposto
A combinação de altas temperaturas – que levaram o consumo de energia a níveis recordes – e de chuvas acima da média colocaram o sistema elétrico brasileiro novamente à prova. Em Curitiba, quase 90 mil domicílios ficaram sem luz após o temporal de domingo, por intervalos de até cinco horas, e até as 19 horas de ontem o fornecimento não havia sido restabelecido para pouco mais de cem casas. Em São Paulo, o governo cogita processar distribuidoras responsáveis por regiões que ficaram longos períodos sem energia.

Embora concessionárias e alguns especialistas atribuam os cortes à “situação excepcional” do clima, há quem culpe uma certa “frouxidão” das metas de qualidade do setor. “Os parâmetros da Aneel [Agência Nacional de Energia Elétrica, que regula o setor] protegem demais as distribuidoras”, afirma Otavio Santoro, sócio-diretor da consultoria Indeco. “O grau de exigência deveria ter sido elevado paulatinamente, para obrigar as distribuidoras a investir mais nesse quesito.”

Dados da Aneel mostram que, após cair 39% entre 1997 e 2001, o tempo médio que o consumidor brasileiro fica sem luz durante um ano – índice definido pela sigla DEC – praticamente não mudou desde então, ficando em 16,6 horas em 2008. Nesse mesmo ano, a média no Paraná foi de 12,2 horas, apenas 6% abaixo do número de 2001 (13 horas). Uma estagnação que, cedo ou tarde, afeta o consumidor. “Na região onde moro, basta chover para acabar a luz”, reclama o artista plástico Marcos Alexandre Lozza, que mora no bairro Tarumã, em Curitiba, e ficou cinco horas sem luz no domingo.

Satisfação em queda

Casos assim podem ser extremos, mas, na média, o grau de satisfação com a velocidade em que a Copel restabelece a energia caiu para 62,7% no ano passado. O número – que integra o Índice Aneel de Satisfação do Consumidor (Iasc) – foi o segundo pior da década, e ficou abaixo das médias da Região Sul (66,7%) e de todo o país (64,6%), além de muito inferior ao de 73,5% que a própria Copel exibia em 2000. Contatada, a empresa não se manifestou sobre o assunto.

Diferentemente do que ocorreu no “blecaute nacional” de novembro, quando se questionou a qualidade das redes de transmissão (que levam a energia das usinas aos centros urbanos), desta vez o foco está no sistema de distribuição, responsável pelo fornecimento ao consumidor final. As distribuidoras têm metas de qualidade a cumprir, sob pena de receberem reajustes menores nas tarifas – mas, com metas tidas como brandas, isso é raro. Uma regra em vigor desde janeiro determina que, a partir de determinado número de horas sem luz, o consumidor terá direito a uma compensação direta na conta, mas tal desconto tende a ser irrisório – segundo simulação da Aneel, se a distribuidora ultrapassar seu limite mensal em duas horas, o desconto em uma conta de R$ 100 será de R$ 1,23.

Cláudio Sales, presidente do Instituto Acende Brasil, admite que os níveis de qualidade “se estabilizaram”, mas pondera que, uma vez atingido determinado patamar, melhorá-lo exige investimentos “exponencialmente mais altos”. “E investimento maior exige tarifa maior”, diz. Mas Sales avalia que, de modo geral, o sistema é bom, e que os blecautes são consequência “de um aumento vertiginoso do consumo, em razão do calor, e da incidência de chuvas muito acima do normal”.

Para Sílvio Areco, diretor da consultoria Andrade & Canellas, o país enfrenta “uma situação climática extremamente rude”. “Seria inviável investir fortunas para evitar problemas que ocorram a cada 40 anos e durem 14 horas”, avalia, citando o exemplo da França, que pretende enterrar as linhas de transmissão e distribuição, protegendo-as de intempéries.

Mas, na avaliação de Ivo Pugnaloni, diretor da consultoria Enercons, o problema pode ser mais trivial, assim como a solução. “De fato, chuvas fortes e raios podem danificar transformadores e o sistema de isolamento das linhas, de uma vez só ou aos poucos, e determinadas regiões podem exigir a instalação das chamadas redes isoladas, que custam três vezes mais. No entanto, há que se observar, antes de mais nada, como anda a poda das árvores. E a se há necessidade de substituir a arborização urbana, que privilegiou árvores frondosas mas não a segurança da distribuição.”

    Gazeta do Povo

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