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.: Curitiba
Sob o domínio do crime
A chacina do Barreirinha, que deixou seis mortos na sexta-feira passada, abriu os olhos dos curitibanos para uma nova realidade existente na cidade: a ocorrência de áreas em que o tráfico manda e o poder público tem dificuldade de entrar. As autoridades negam que estejam perdendo terreno para o crime. Mas agentes públicos, líderes comunitários e voluntários de ONGs confirmam: em pelo menos oito regiões de Curitiba há pontos em que o Estado vem sendo mantido a distância pelos traficantes. Quem entra, se é que entra, precisa ter autorização dos donos da área, ou estar acompanhado de líderes comunitários.

No caso da “Favelinha da Barreirinha”, onde ocorreu a chacina, as autoridades foram obrigadas a admitir: têm poucas informações sobre o local justamente em razão da dificuldade de entrar na área. Nem mesmo os agentes de saúde teriam livre trânsito na favela, dominada pelo tráfico de drogas.

Após o crime, a polícia foi à favela e, em poucos dias, prendeu os suspeitos do massacre. Antes disso, porém, os policiais receberam várias informações sobre a existência de tráfico na área. A ocorrência da chacina (e de outros assassinatos anteriores na área) prova que o Estado foi incapaz de agir na área antes da tragédia.

Além do Barreirinha, a reportagem identificou como locais onde há áreas de poder paralelo os bairros do Sítio Cercado, Uberaba, Boqueirão, Xaxim, CIC, Parolin e Pinheirinho. A Secretaria da Segurança Pública não se manifestou sobre o tema. A prefeitura de Curitiba nega que haja barreiras geográficas na cidade.

Limite

Presidente do conselho de segurança do Xaxim, Jeovane Alves Fernandes afirma que a própria geografia das áreas de invasão é uma barreira para a presença das autoridades. Quase sempre próximas a rios (áreas que ficam livres para invasores devido à proibição de construções regulares), as favelas, quando dominadas por traficantes, ficam ilhadas do restante da cidade. “A ponte do rio é o limite para a chegada do social”, afirma. Não há poucas áreas nesta situação: só de ocupações irregulares, são 258 em Curitiba.

No Barreirinha, o rio mais uma vez marca o limite da favela. O Jardim do Arroio, uma pequena ocupação de cerca de 40 casas, é separado do bairro de classe média por uma ponte. E para o outro lado do rio pouca gente passa.

Para Sérgio*, morador do local, há uma intimidação por parte daqueles que cuidam do tráfico na região. Além da venda e do consumo de drogas, conta ele, existem pontos de prostituição infantil. “A questão supera o problema policial. É social”, fala. A parte social a que ele se refere envolve os moradores que nada têm a ver com o tráfico mas que ficam sem serviços essenciais oferecidos pelo poder público.

A vendedora Solange Ghivvi, evangelizadora de uma igreja próxima, conta que para superar a barreira e conseguir entrar na área é preciso ter jeito e respeitar os moradores. Sua permanência no local sempre depende da aprovação dos grupos. Com isso, nunca sofreu violência.

Para a agente de saúde Carolina*, que atua no Boqueirão há seis anos, já houve um tempo em que trabalhar na região foi difícil. Mas, com perseverança, conseguiu chegar a todas as famílias. Sua microrregião, próxima à linha do trem, é considerada uma das mais vulneráveis. Ali, é comum conviver com usuários e traficantes. Ela conta que já foi interceptada por um deles e sofreu ameaça: se ela não fizesse o que queriam, sua família sofreria consequências. “Fiquei com pavor. Mas minha vontade de ajudar sempre foi maior”.

A agente diz que já presenciou homicídios. Ser surda, cega e muda é o passaporte para a segurança, diz ela. “Você acaba fazendo de conta que não viu nada”. Uma colega sua também lembra do sacrifício diário para poder entrar em casas de famílias em que a droga imperava. Sua tática foi aprender a linguagem local. Mesmo quando ofereciam drogas, ela recusava com bom-humor.

Pastoral

Só quem está na rua sabe o que é driblar o poder do tráfico. Para a voluntária da Pastoral da Criança Elizabeth Ignácio dos Santos essa é uma verdade sentida mensalmente, quando presta atendimento a 48 famílias do Parolin. Ela só entra acompanhada de moradores. A regra para ser bem aceita é saber chegar em cada família. Respeito é fundamental. Batidas policiais e moradores fugindo são uma coisa corriqueira. Perguntada se desistiria, Elizabeth ri. “A gente se apaixona pelo trabalho e pelas pessoas que atende”.

Presidente de uma associação de moradores no Uberaba e voluntária da pastoral, Maria Silvani Araújo Gonçal­ves dá o mesmo conselho. “Atendemos os filhos deles e socorremos quando nos pedem. No resto, a gente não se envolve”, conta.

*Nomes fictícios.

    Gazeta do Povo

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