Três semanas após a rebelião na Penitenciária Central do Estado (PCE), em Piraquara, que resultou na morte de sete detentos, um túnel com dez metros de comprimento e três de profundidade foi descoberto durante uma vistoria na galeria 5. A rota de fuga teria sido cavada em três dias, depois da rebelião que começou no dia 14 de janeiro e só foi controlada no dia seguinte.Segundo o advogado Dálio Zippin Filho, membro da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e integrante de uma comitiva que inspecionou a PCE na quarta-feira, depois de denúncias de tortura na unidade, a saída do túnel já estava próxima do muro externo do presídio. “Os presos não precisavam nem se arrastar, passavam agachados”, conta o advogado.
O túnel teria sido descoberto na terça-feira. Como a maior parte das celas da PCE foi destruída durante a rebelião, grupos de aproximadamente 150 detentos têm sido mantidos presos apenas dentros das alas, o que dificulta o acesso dos policiais. A terra retirada pelos presos foi jogada em uma cela. De acordo com o que teria sido apurado pelos policiais, alguns detentos simulariam uma tentativa de fuga pela grade da ala, para distrair a segurança, enquanto outros fugiriam pelo túnel. Os detentos da galeria 5 foram mantidos no pátio da penitenciária até o túnel ser tampado. A Secretaria de Estado da Justiça (Seju) não se pronunciou sobre a descoberta do túnel. Segundo a assessoria da Seju, o secretário Jair Ramos Braga estava em viagem no interior do estado.
Sem tortura
Dálio Zippin Filho contou que não foram constatados sinais de tortura entre os presos. “Não constatamos nenhuma das denúncias. Os presos ficam brincando de gato e rato com os policiais. A única forma de manter certa disciplina é disparando balas de borracha”, diz o advogado. Dois presos foram atingidos por disparos – um no braço e outro no queixo – e passam bem.
Para Zippin, a troca das portas das celas que foram destruídas ainda é insuficiente. “São portas que não correspondem com a necessidade. Têm grades muito frágeis e com buraco para passar a alimentação, em que um preso magrinho pode passar. Terão de ser modificadas e reforçadas”, avalia o advogado.
A comitiva constatou que policiais militares e agentes penitenciários que cuidam da PCE têm apresentado quadro de diarreia. “Os policiais estão em situação pior que os presos. Não têm onde sentar e alguns ficam horas no sol”, afirma Zippin Filho, que também é membro do Conselho Penitenciário da Secretaria de Estado da Justiça e da Cidadania. Segundo ele, cerca de 1,2 mil presos ainda estão na PCE.
Agentes
O advogado dos dois agentes penitenciários presos na terça-feira acusados de articular a rebelião considera o inquérito do Centro de Operações Policiais Especiais (Cope) “cru”. Para ele, seus clientes são “vítimas para dar uma resposta à sociedade”. “Faltam mais diligências. Os dois estão em uma situação de desproporção de força frente ao estado”, diz Adauto Pinto da Silva, que entrou com pedido de revogação das prisões. Estão presos o chefe de segurança da PCE, Celso Tadeu do Nascimento, e o subchefe, Carlos Carvalho da Silva. Eles são acusados de transferir presos para galerias com detentos de facções rivais.