Caros amigos,

Estamos enviando a nossa proposta inicial para as discussões sobre o ensino no contexto da rede solidária. No aguardo de uma resposta,
Maik


Proposta de discussão sobre o ensino na sócio-economia solidária


O  DOCUMENTO

O presente texto é uma transcrição do que já foi elaborado para o encontro anual do CET ( Conselho de Escolas de Trabalhadores ) e representa fragmentos de propostas de ensino calcada na experiência individual e coletiva das entidades ali presentes. Por essa razão achamos valiosa as experiências temáticas aqui abordadas e esperamos que contribua de alguma forma para subsidiar o debate em torno ao programa de educação que queremos construir para alicerçar a Sócio-economia Solidária.

A EDUCAÇÃO PARA CIDADÃS E CIDADÃOS TRABALHADORES

Tornou-se moeda comum referir-se à solidariedade ou à cooperação como qualidades inerentes à humanidade, manifestadas desde os primórdios da sua história e fazendo parte do que se convencionou chamar de "natureza" humana.

Mais do que todos os outros viventes, os homens são seres culturais. Isto é: eles fazem cultura e se fazem na cultura. À diferença dos outros, os viventes humanos não se constituem em "indivíduos" de uma espécie. Os indivíduos das outras espécies trazem em si mesmos, biologicamente, as ordenações da sua própria espécie. E estas lhes bastarão à sua sobrevivência individual – que é salvaguarda à sobrevivência da própria espécie.

Os viventes humanos são animais que se fazem humanos através da cultura de sua sociedade, pela via da educação. Os viventes humanos são sujeitos sociais que se tornam sociais por sua educação, num processo que tem início com seu nascimento e que só termina com seu fim pessoal, com sua morte.

De nada nos adianta dizer, pois, que a cooperação é parte constitutiva de uma "natureza" humana se a socialidade desenvolvida culturalmente é aquela do individualismo, do proveito próprio a qualquer custo e da competitividade que exclui o outro. O que compromete até o fundo a prática educativa da sociedade vigente.

A educação cooperativa e solidária se torna, assim, uma necessidade de primeira ordem quando nos propomos à construção de uma sociedade e uma cultura capazes de produzirem a solidariedade e a cooperação, reproduzindo-se em solidariedade e cooperação.

Decorre daí o desafio de criar e fortalecer propostas de educação que se recusam a ser meros instrumentos de compensação social. No campo da educação de que se vai falar aqui – escolas de trabalhadores – este tem sido um grande desafio (...)

Entendemos que para as Escolas de Trabalhadores a questão da educação é ponto fundamental na construção da cidadania e realização do homem como ser consciente e transformador.

Cidadãos são habitantes a uma só vez construtores/governantes/beneficiários de cada cidade humana. Não cidade oposta ao mundo rural, mas cidade como matriz concreta de uma cultura que está em permanente construção, reposição, recriação. Como matriz e meio ambiente social de cada modo humano de vida, de forma do bem viver de homens e mulheres.

A educação das cidadãs e cidadãos é um processo pelo qual as novas gerações passam a compartilhar das técnicas, conhecimentos, relações e valores que lhes permitem participar da vida social da sua cultura, sociedade, cidade.

O trabalho, por sua vez, é a característica fundamental da cidade, pois as cidades são construídas a partir do trabalho constante e ininterrupto das cadeias de gerações de mulheres e homens. A participação no trabalho, entendido como ação criativa, construtiva mantenedora e transformadora de todas as dimensões da cultura humana, é a condição básica ao exercício da cidadania: pois o trabalho é quem cria os modos e as condições do bem viver – a cultura – de cada cidade.

Portanto, não apenas uma educação voltada para aquisição de conhecimentos e, menos ainda, conhecimentos cortados, deficientes/auto-suficientes ou subalternos, mas uma educação capaz de construir o processo de tornar-se cidadão, isto é, voltado à formação de sujeitos participantes do exercício e usufruto do trabalho(...)

Entendemos que o combate à exclusão social concreta e crescente ( exclusão do trabalho, do conhecimento, do exercício da cidadania ) não passa pela promoção de saídas do tipo quebra-galho, como os cursos rápidos de formação de mão-de-obra, que duram entre uma semana e dois ou três meses, no máximo, e que pretendem responder às exigências mínimas de um mercado de trabalho cada vez mais restrito. Mas nem se trata, tampouco de simplesmente promover cursos capazes de responder às exigências máximas de qualificação de mão-de-obra destinada a ser "elite" neste mesmo mercado. Tanto um caso como o outro reforçam a situação de exclusão do momento em que botam água no perverso moinho da competição por vagas a que os trabalhadores foram levados

Do ponto de vista de diversas Escolas de Trabalhadores, o desafio consiste em construir e executar propostas de educação nas quais cooperação e solidariedade sejam algo já encarnado nos próprios currículos dos cursos, nos conhecimentos trabalhados, nas relações entre instrutores e alunos, alunos e alunos, escola e mundo "lá fora", nos métodos pedagógicos, nas normas e formas de gestão da Escola, na sua relação crítica com a técnica e o trabalho, no seu compromisso com a invenção de novas formas e alternativas de trabalho, no seu vínculo com os movimentos sociais... Significa dizer que uma educação para a cooperação e a reciprocidade exige uma mudança radical frente ao mundo e a cultura vigentes.

É nessa perspectiva que falamos em educação de cidadãs e cidadãos trabalhadores. É verdade que muito se tem falado ultimamente em "fim do trabalho", numa espécie de versão esquerda do "fim da história". Mas não é porque a economia capitalista venha eliminando postos de trabalhos que estejamos a ponto de apagar do mapa àquela atividade pela qual nos tornamos humanos: o trabalho.

Do ponto de vista humano, atividades como a procriação, a educação, a reprodução da vida e da saúde, a criação de conhecimentos, artes, técnicas e o exercício do governo sobre as cidades são trabalhos inelimináveis. Do ponto de vista do capital, não se inventou ainda um outro meio de se ganhar a vida – a quem não foi provido de bens nem se disponha à rapina – a não ser aquele do aluguel ou venda do próprio trabalho.

Assim, se cada um deve viver de seu próprio trabalho e se do trabalho de todos dependem as condições de bem viver em cada cidade, é sempre importante que se fale da educação de cidadãs e cidadãos trabalhadores(...)

A QUESTÃO PEDAGÓGICA

Nas Escolas de Trabalhadores, a pedagogia não é vista apenas como uma simples questão de método, mesmo porque a questão do método não é uma simples questão neutra. O modo e sempre modo de um conteúdo conforme as suas cargas e tensões.

A pedagogia que se volta para o tornar-se cidadão é uma pedagogia voltada para a expansão da autonomia dos sujeitos sociais: um processo, portanto, que não tem fim. São características desse processo:

  • A valorização das experiências acumuladas que cada um traz;

  • A construção conjunta e intercomplementar das habilidades, conhecimentos e condutas;

  • A desmistificação da absolutização do conhecimento e da carga de poder que a esta se associa;

  • A ação ligada à reflexão e à intervenção social;

  • A construção da autonomia, o exercício do poder compartilhado e a invenção de novas formas de representação;

  • A abertura à crítica, à reciclagem e à re-inveção;

  • A permanente avaliação;

  • A responsabilização e o envolvimento dos alunos e ex-alunos em relação ao empreendimento social no qual se constitui cada uma das escolas de trabalhadores.

Esse processo, portanto, não se limita apenas ao aprender, como se o aprendizado conjuntamente construído fosse já o ponto de chegada. Ele se estende ao aprender a aprender, à criticar o aprendido e a se abrir para novas criações, em um processo pedagógico no qual todos são, por igual, atores e efetivamente participantes.

Para as Escolas de Trabalhadores, a questão pedagógica não se restringe apenas à construção de habilidades profissionais e de conhecimentos desenvolvidos em oficinas, laboratórios e salas de aula; mas se estende à todos os espaços da vida escolar no qual se busca a gestão democrática do processo educativo, visando transbordar para fora, para a luta pela gestão e governo do mundo social. Por isso a dimensão política de todos os assuntos trabalhados deve ser buscada com discernimento, através de ganchos bem construídos e capazes de tornar a discussão política mais sistemática. Por isso há necessidade de preparação e pesquisa, a fim de tornar essa discussão atraente e não um desvio ou perda de tempo em relação "aos demais" conteúdos (grifo meu).

As exigências desse processo implicam numa equipe de trabalho coesa, crítica e disponível, e em equipamentos e instalações apropriadas e compatíveis com o desenvolvimento das atividades. Implica, além disso, na continuidade do trabalho após o término do curso, através de atividades e iniciativas promovidas pelos próprios ex-alunos e incentivadas pela Escola.(...)

Características do processo pedagógico:

A socialidade.

A partir do pressuposto básico de que o saber é resultado do trabalho humano, as Escolas de Trabalhadores têm, pois, no próprio trabalho, a chave para o conhecimento. Nelas o processo de produção do conhecimento toma a via inversa ao procedimento escolar costumeiro. A valorização dos conhecimentos e experiências que cada um traz de suas vidas e trabalhos é o estopim ao processo de aprendizagem, descoberta e formulação do saber em conjunto, reiniciando a cada nova turma. Da prática social trazida por cada um, estabelece-se a reflexão e elaboração conjuntas, criando-se uma nova prática social, tensionada agora explicitamente pela solidariedade entre trabalhadores(...)

Esse processo exige, mais que um professor, um educador. Não que se ponha à frente para mostrar grande conhecimento, nem manifestar o poder que este lhe atribui. Mas um facilitador do trabalho e do pensamento conjunto, que anima e encoraja os mais tímidos; que segura os mais afoitos em respeito ao trabalho comum; que estuda e pesquisa continuamente e, por isso sabe incentivar os alunos à atitude de pesquisa, estudo e aprendizagem permanente e em conjunto. Exige alguém que seja companheiro e igual, igual entre iguais, imbuído de um profundo respeito para com o outro, e de muito senso crítico: acerca dos próprios limites e possibilidades, dos limites e possibilidades de cada um. Não será exatamente este o papel da educação? Romper os limites, pessoais/sociais, a fim de se buscar a expansão da autonomia social e, por aí, da autonomia de cada sujeito social?

A historicidade.

A compreensão de que a s culturas e as sociedades são históricas é uma questão fundamental nas Escolas de Trabalhadores. Por isso, sua resposta é de conferir à historicidade um peso de critério básico para sua ação pedagógica.

As técnicas, como fruto das relações sociais, estão inseridas no contexto das lutas sociais. Estudar as ciências e as técnicas significa analisá-las do ponto de vista histórico: o contexto social no qual foram concebidas, seus impactos sócio-econômicos, políticos e ambientais, suas conseqüências, suas perspectivas, etc. O que permite revitalizá-las, contrapondo-se à visão do capitalismo pela qual elas são sempre absolutizadas como "devendo ser" inquestionável e resultado de inteligências divinizadas. Não como o resultado do trabalho e criatividade humanas. Na visão capitalista esta relativização do conhecimento científico e das tecnologias só ocorre quando aparecem "novidades" que possam resultar em maiores lucros.

A centralidade da História do Trabalho estabelecida como uma das molas mestras da ação pedagógica - os diversos conteúdos de matemática, física, química,... e das diversas tecnologias, vistos em suas histórias específicas e no conjunto da história do trabalho humano - permite que os alunos se sintam concernidos dentro dessa mesma história. Como participantes e construtores dela e não simples receptadores de iluminações superiores a serem por eles operacionalizadas como executores mecânicos, sem conhecimento de causa nem crítica possível. - ainda que não se possa pedir demais, a humanos em pedagogia, deles não se pode fazer pouco(...)

A análise histórica se põe, assim, como base para qualquer trabalho pedagógico que se proponha a contribuir com a abertura de caminhos para uma nova sociedade, de maior dignidade, solidariedade e igualdade, como é o caso das Escolas de Trabalhadores.

A completude expansiva.

A escola, na atualidade, se tornou uma das instâncias fundamentais de socialização do cidadão, a tal ponto que a educação escolar pública, nas sociedades atuais, revela o caráter da democracia construída e vivida por cada uma de nossas cidades.

As Escolas de Trabalhadores entendem que o cidadão por excelência é o trabalhador, uma vez que o trabalho é que repõe e recria, de fato, as cidades, garantindo a todos os seus cidadãos as condições de vida ou qualquer direito possível. Sem trabalho não há cidade nem direito algum.

(...), o exercício da política como participação igual e comum de todos os cidadãos no governo da cidade, só poderá ter sua matriz e nascedouro no lugar de citadinização de cada um, ou seja, na escola como matriz comum dos cidadãos trabalhadores.

(...), assim como todas as instâncias da cidade são motivo e objeto de educação para a escola, isto é, de crítica e criação , também todas as instâncias da escola são políticas, quer dizer, motivo e objeto do empenho e imaginação (...)

a experiência escolar ou pedagógica não se resume ás instâncias do desenvolvimento do intelecto apenas, ou das habilidades manuais dos aprendizes, mas visam-nos em sua completude, enquanto sujeitos sociais que buscam se expandirem suas relações consigo, com os outros, com o conjunto da sociedade. Referem-se, assim, a todas as ações humanas: àquelas pelas quais a vida social se repõe, recriando-se continuamente; de tal modo que todas as dimensões da vida social que se fazem presentes a cada um de nós não sejam indiferentes ou alheia a atividade escolar.

(...)Como o fazer pedagógico de cada um só termina com sua morte ( a rigor somos a criança que fomos em constante refazimento ), a vida toda de cada um corresponderá, sem dúvida, a um fazer educativo apropriado à sua etapa de desenvolvimento humano.

EDUCAÇÃO E POLÍTICA

Sob o ponto de vista dos educadores das Escolas de Trabalhadores, o trabalho, tendo em vista o perfil de cidadania objetivado, é entendido como elemento fundamental dessa cidadania, "pois criador e repositor da cidade, dos direitos, da cultura e das condições de bem viver sociais, se propugna o acesso, por parte de todos os trabalhadores, a uma educação cidadã. Que abarque, conjuntamente, todos os âmbitos da vida social e, continuadamente, a cada etapa de suas vidas. De modo a permitir que cada um participe como sujeitos dos trabalhos, da criação dos conhecimentos e do exercício do governo sobre suas cidades".

(...) Qualquer projeto de educação é, antes de tudo, um projeto de sociedade(...). Questionamos o sistema de educação vigente no processo em curso de globalização, monitorado pelo capital ( através do BIRD ), que "transformou as cidades humanas num grande mercado, reduzindo a cidadania ao consumo e tornando o trabalho um artigo de luxo. Quem não se habilita, ou não se submete a transitar entre cidadão-consumidor e indivíduo-empresa encontra-se cada vez mais excluído da política economicizada e da economia despolitizada que tomou conta do mundo".

(...)No entanto queremos afirmar que é nossa convicção que o trabalho humano nunca se mostrou tão rico de "materiais" nem tão prenche de possibilidades e opções como no momento presente; como resultado do próprio trabalho humano, historicamente acumulado e como resultante de um possível processo educativo aberto às dimensões todas da cidade humana.

(...) Sujeitos sociais que, pelo trabalho continuado e permanente, se manifestam mutualmente pela construção, reposição e recriação permanente das cidades humanas como nicho e matriz da cidade de todos os viventes humanos. E que, por isso mesmo, reconhecem o trabalho humano como a condição e o princípio de todo o direito e liberdade. O que faz com que o limite do direito e da liberdade de cada um se inicie exatamente também onde tem início o direito e a liberdade de todos que são os cidadãos.