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ORGANIZAÇÃO POPULAR: UMA POSSIBILIDADE DE CONSTRUÇÃO COM PARTICIPAÇÃO DA COMUNIDADE UNIVERSITÁRIA
Luis Oscar Ramos Corrêa (1)
DEPARTAMENTO DE EDUCACAO E DESENVOLVIMENTO SOCIAL PRO-REITORIA DE EXTENSAO UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
PORTO ALEGRE/RS
Resumo: Este relato de experiência tem como base, as ações desenvolvidas por grupos interdisciplinares compostos de acadêmicos/acadêmicas da UFRGS (cursos: Odontologia, Medicina, Veterinaria, História, Ciências Sociais, Pedagogia, Artes Plásticas, Enfermagem, Letras, Educação Física e Direito) junto à Comunidade de Logradouro, vila periférica do Município de Guaíba, durante o período de julho a dezembro/97 e janeiro a junho/98. Cerca de 30 alunos/alunas trabalharam neste projeto, sendo que cada um/uma tinha um professor/a orientador/a na sua respectiva área, o principal objetivo deste Projeto foi o de incentivar as ações comunitárias, através da mobilização e organização popular, isto é, o papel a ser desenvolvido era o de agente social, conforme conceito desenvolvido por Paulo Freire.
Palavras-chaves: participação acadêmica participação e educação popular organização comunitária.
INTRODUÇÃO
A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) vem desenvolvendo desde 1994, Programas e Projetos via Pró-Reitoria de Extensão/Departamento de Educação e Desenvolvimento Social, com o objetivo de atender à sua necessidade de interação com interlocutores preferenciais na comunidade, identificados como sendo os trabalhadores/as rurais e as organizações comunitárias de vilas periféricas de diversos municípios.
Estes Programas e Projetos desenvolvidos pela UFRGS, procuram definir politicamente a ação comunitária como função da Universidade, necessária para a formação de alunos/alunas comprometidos/as com as comunidades carentes e preparados/as para colaborar na explicitação de seus problemas (das Comunidades), seja através de ações para que estas mesmas comunidades equacionem os seus problemas, seja pela articulação com dos órgãos governamentais competentes para que cumpram o seu papel de Estado.
Em julho/97, foi assinado o Acordo de Cooperação Mútua entre a UFRGS e o Governo do Estado Rio Grande do Sul para o desenvolvimento do Projeto (UFRGS) Juventude Solidária Inverno/97, visando atender necessidades básicas das comunidades periféricas dos municípios de Cachoeirinha (Vila Assunção, Anair e outros) e de Guaíba Vilas Pedras Brancas e Logradouro ), a partir de acertos com as autoridades municipais e suas respectivas comunidades. Este Convênio teve a duração de 2 anos com quatro etapas de funcionamento do Projeto.
Existem diferenças fundamentais entre os Programas e Projetos desenvolvidos pela UFRGS e o Programa Juventude Solidária proposto pelo Governo do Estado. No entanto, a Universidade entendeu ser importante trabalhar no sentido de aproveitar este espaço para buscar a melhoria de condições de vida para as populações periféricas e, ao mesmo tempo, gerar condições e alternativas de experiência profissional e comprometimento social para acadêmicos/acadêmicas, professores/professoras e técnicos/as-administrativos/as participantes.
O ponto comum neste projeto conjunto entre UFRGS e o Governo do Estado é o propósito de criar condições para que a comunidade Universitária reflita a partir de ações concretas (in loco) que beneficiem as comunidade das periferias urbanas (2) .
UMA EXPERIÊNCIA CIDADÃ
"...o desafio que se propõe aos revolucionários neste fim de século não é apenas o de tomar o poder burguês, mas, uma vez tomado, reiventá-lo..." Paulo Freire
Este relato de experiência tem como base, as ações desenvolvidas por grupos interdisciplinares (3) compostos de acadêmicos/acadêmicas da UFRGS (cursos: Odontologia, Medicina, Veterinaria, História, Ciências Sociais, Pedagogia, Artes Plásticas, Enfermagem, Letras, Educação Física e Direito) junto à Comunidade de Logradouro, vila periférica do Município de Guaíba, durante o período de julho a dezembro/97 e janeiro a junho/98 e que tiveram como meta comum a organização comunitária e educação popular. Cerca de 30 alunos/alunas trabalharam neste projeto, sendo que cada um/uma tinha um professor/a orientador/a na sua respectiva área. Fui o Coordenador desses grupos.
O principal objetivo deste Projeto foi o de incentivar as ações comunitárias, através da mobilização, organização e educação popular, isto é, o papel a ser desenvolvido era o de agente social, conforme conceito desenvolvido por Paulo Freire (4).
Vejamos o que nos diz Gayotto em uma passagem do Livro O Processo Educativo em Paulo Freire e Pichon-Riveire:
"...A ação comunitária está ligada à transformação em seu sentido mais amplo: mudam as pessoas, as tarefas, os objetivos comuns. A própria ação comunitária é um processo de transformação, pois cada ponto de chegada significa um novo ponto de partida. O realizar e o recomeçar acompanham o papel do líder de mudança..." (GAYOTTO, 1989, P.71)
O agente social trabalha para desenvolver a ação comunitária, a organização popular, onde os próprios membros da comunidade é que desenvolvem as alternativas e soluções possíveis, na tentativa de acionar um processo de transformação da sua realidade, ficando o agente como: assessor, mediador, facilitador e EDUCADOR nos possíveis processos de mudança. Partiu-se do princípio de que, necessariamente, a organização popular também é um ato/espaço educativo/pedagógico.
Ao manter-se os primeiros contatos com a Prefeitura de Guaíba, em julho/97, ficou acertado que a Secretaria de Educação do Município forneceria o suporte necessário para o desenvolvimento dos trabalhos, isto é, locomoção necessária no próprio Município (da UFRGS até o Município, a própria Universidade se responsabilizava pelo transporte), alimentação (almoço e lanche) e material necessário para o desenvolvimento dos trabalhos/oficinas. Ficou acertado também com a Secretaria de Educação do Município que uma das Supervisoras Pedagógicas acompanharia a equipe durante o período do trabalho: a Profª Sandra Deitos.
Logradouro, vila periférica do Município de Guaíba, situa-se a uns 25km do centro, (semi-rural) onde moram aproximadamente 250 famílias (5): É um exemplo da perversa realidade social que paira sobre o país.
Lá a luz é precária, não tem água encanada, no máximo um poço caseiro ou então pega-se água no caminhão pipa ou de balde na caixa dágua da escola que é de 1.000 litros. Não existe saneamento básico e o recolhimento de lixo era realizado precariamente. Telefone público só a 20 km, não há posto de saúde; não há policiamento e nem infra-estrutura (plano urbanístico). Metade das casas estão sob um antigo lixão da cidade, que foi "loteado" por um antigo prefeito para abrigar as pessoas que estavam vivendo nas ruas ou na periferia mais próxima do centro da cidade, e se constituem em histórias da comunidade.
Conforme passava o tempo, notou-se que o trabalho se delineava basicamente pela sensibilização dos moradores/moradoras quanto aos seus problemas. Percebeu-se que a receptividade para com a equipe era razoavelmente boa. Construíam-se os laços de confiança entre a equipe da UFRGS e a comunidade.
No desenrolar das reuniões com a comunidade, que aconteciam sábados a tarde, começou-se a ter, uma maior visibilidade dos vários problemas enfrentados cotidianamente:
- falta de um posto telefônico;
- precariedade de transporte coletivo urbano;
precariedade da luz;
falta de água encanada;
falta de saneamento básico;
falta de recolhimento do lixo;
ampliação da escola (só tem uma sala de aula);
falta de um posto de saúde;
falta de uma creche comunitária;
falta de posto policial
falta de articulação dos moradores;
desemprego.
Após este mapeamento, estabeleceu-se, em conjunto com a comunidade, as prioridades e estratégias para que soluções possíveis e uma articulação junto aos os órgãos públicos competentes fossem encaminhados.
No entanto, chegou-se a uma constatação, quase que óbvia, de que a situação era tão grave, que a única maneira de se tentar alguma transformação na realidade daquela comunidade, seria através da viabilização de uma Associação de Moradores, ou seja, da organização popular. Para tanto, era preciso que os moradores tivessem a clareza de todos os objetivos a serem alcançados, os quais eram estritamente coletivos tendo presente que ações isoladas não dariam (e nunca deram) os resultados esperados pois a experiência mostra que:
Nessa perspectiva utilizou-se, então, o "coletivo/cooperativo" como uma forma de luta pelo bem comum de todos os moradores da comunidade, onde o individualismo necessariamente precisa ser deixado de lado, e isto não significa anular-se pelo coletivo, mas sim ter participação no processo de (re)construção de sua cidadania e da comunidade onde moram. Somente através da organização popular e coletiva, de um trabalho cooperativo, é que se conseguiria articular algum tipo de mecanismo de pressão ao poder público do Município e ao poder Legislativo a cumprirem seus papéis."...As pessoas que não têm noção clara de como comportar-se na nova situação, geralmente se perdem. Nessa situação de confusão é comum que surjam os mal-entendidos, as acusações, as exigências individuais, a defesa da individualidade..." (Ibid, p.71)
Tentava-se instalar um processo de mudança na vida da comunidade (mal sabíamos nós que em nossas vidas também haveriam mudanças), que fatalmente desencadearia um outro processo, o de transformação pessoal. O papel desenvolvido pela equipe era o de intervir na discussão, não autoritariamente, impondo o conhecimento acadêmico, mas sim, colaborando com o diálogo crítico perante as formas de organização popular, no caso, na elaboração do estatuto e na organização da Associação de Moradores da Comunidade. Mas era preciso que as pessoas participassem, dando opiniões, relatos de experiências uma vez que o importante era despertar a importância da participação no processo de transformação social ao qual todos nós, equipe e comunidade, estávamos propondo e nos propondo.
Concomitantemente, fazia-se necessária uma transformação pessoal, muito mais complicada, pois mudar ou transformar-se, implica em perder algo já construído dentro ou fora de cada um. É doloroso e conflitivo, e muitas vezes é provável que as pessoas se percam nesta nova situação proposta, ou mesmo comecem a conspirar contra o grupo que propõe a mudança:
"...No começo do trabalho em grupo de ação comunitária, é difícil estabelecer uma relação que permita às pessoas internalizar modelos diferentes de pensar e sentir, de querer e de agir..."(Ibid, p.71)
A cada reunião, enfatizou-se a importância de articulação da comunidade na tentativa de desencadear um processo contínuo, num primeiro período emergencial, de discussões e estratégias para possíveis ações de melhoramentos no que diz respeito aos equipamentos de consumo coletivo, que certamente alterariam a qualidade de vida da comunidade (6).
Ficou claro que, o primeiro encaminhamento deveria ser a fundação da nova Associação de Moradores de Logradouro. Acertou-se que a equipe da UFRGS faria a instrumentalização e assessoramento à comunidade para uma discussão sobre o futuro Estatuto da Associação
Durante cinco sábados, debateu-se, discutiu-se, apresentou-se exemplos de estatutos de outras Associações, buscou-se informações na UAMPA (União das Associações de Moradores de Porto Alegre), procurou-se qualificar e aprimorar a visão crítica e a discussão sobre organização popular na comunidade.
Com uma participação grandiosa da comunidade, de um representante do Poder Legislativo (o Advogado, seu Orlando), uma representante da Prefeitura (no caso a Supervisora Pedagógica, Profª Sandra Deitos) e da equipe, elegeu-se no início do mês de setembro/97, uma Comissão Eleitoral que desencadeou o processo político para as eleições da Diretoria e do Conselho Fiscal e organizou-se o futuro estatuto da ASMOL (Associação dos Moradores de Logradouro).
As eleições foram realizados no final de setembro/97, tendo duas chapas concorrendo a Diretoria e ao Conselho Fiscal. A participação da Comunidade ultrapassou as expectativas, o processo de organização popular alcançou seu primeiro resultado concreto: a fundação da Associação dos Moradores de Logradouro.
Concomitantemente, enquanto este processo era desencadeado, trabalhou-se com as crianças, com a possível formação de um clube de mães, com possíveis alternativas de geração de renda e com Saúde comunitária: através de oficinas e visitações de casa em casa.
Um Ano depois
Após um ano, ocorreram iniciativas importantes e imprescindíveis para a melhor qualidade de vida da comunidade tais como: aprofundamento dos contatos, tanto com a Prefeitura como com a Câmara dos Vereadores; melhoramento no fornecimento de água ( através da mobilização da comunidade e da Associação de Moradores conseguiu-se duas caixas dágua de 5.000 litros cada ); melhoria significativa da iluminação pública e das casas, recolhimento do lixo de dois em dois dias, ampliação do espaço físico da escola (mais uma sala) e segurança (agora tem um policial militar escolar); loteamento e regularização dos terrenos; construção da Sede da Associação, etc., etc.
No entanto, esses fatores não foram suficientes para resgatar a auto-estima e a perseverança da comunidade, tão necessárias para vida humana e para a conquista de cidadania. O fator político/reivindicatório, que já tinha até certo ponto sido contemplado, não mudou o quadro de apatia, de resignação, de desânimo que continuava sendo perceptível nas Assembléias Comunitárias e nas visitações de casa em casa.
Uma das estratégias utilizadas pela equipe, na tentativa de avaliar este diagnóstico, foi a metodologia etnográfica - conversas estruturadas - (7). Pelas experiências da equipe anterior (julho a dez/97) sabíamos que questionários e perguntas diretas não funcionariam como instrumento de mobilização e como investigação sobre a identidade da comunidade com o local onde vivem. Basicamente, o que se buscava era uma tentativa de avaliação do porquê da falta de interesse dos moradores pelas ações propostas para Logradouro, pelos próprios moradores através da Associação (ASMOL) em assembléias/reuniões comunitárias.
Em palestra proferida em Porto Alegre, Gaudêncio Frigotto nos indica um caminho"...É preciso construir na diferença, na divergência e na diversidade..."(1999). A
A Assembléia Geral Comunitária, um dos mecanismos mais poderosos de organização popular, não deveria servir apenas (pelo menos em nossa concepção, não deveria) para reunir e deliberar sobre alguns assuntos. Deveria ser, sim, o espaço privilegiado do processo pedagógico/crítico sobre cidadania de como avaliar os impactos/interferências que as políticas públicas, ou a falta destas, fazem no modo de vida de cada família, de cada ser.
Neste sentido, as Assembléias populares podem se constituir em instrumentos de percepção/leitura do mundo destas pessoas, viabilizando a expressão (tanto pela oralidade, quanto pelo gesto) e a tensão de sentimentos latentes: ódio, esperança, tristeza, felicidade, etc. O que nos leva a crer que este instrumento de organização civil, aqui no caso comunitária, é uma das alternativas para investigações de como o conhecimento popular demonstra historicamente, apesar da miséria material/econômica/social a qual está subjugado, competência na descoberta de mecanismos de sobrevivência. (8)
Aqui então surge então, outra reflexão, sobre o desemprego: a grande maioria dos moradores de Logradouro (9) estão desempregados, outra parte vive de biscates, alguns são aposentados, outros já perderam as esperanças de vislumbrar qualquer possibilidade de trabalho.
O sistema social econômico ao qual se está vinculado, tem como seu eixo fundamental o mercado (que não tem cor, nem raça, nem sexo, nem nacionalidade, nem bandeira, nem partido político, nem espiritualidade, nem escrúpulos). A válvula propulsora deste é a competitividade. É necessária uma competição exacerbada, que leve até as últimas consequências o individualismo, na tentativa de conseguir algum/qualquer emprego. Outro levantamento realizado por uma de nossas equipes foi com relação à educação pois é no Ensino Fundamental (1ª a 8ª séries) completo ou incompleto onde se encontra o maior número de moradores/as (10).
Por outro lado, sabe-se que nosso sistema de empregos é fragmentado existem os que detém os meios de produção e os que trabalham para os meios, os que elaboram e os que executam as tarefas na distribuição e fragmentação do trabalho e que pessoas com este nível de escolaridade são os que serão recrutados para a face manual do trabalho (11). Mesmo que o fator emocional, momentaneamente seja em parte contemplado pela possibilidade de vislumbrar um (algum/qualquer) emprego, independente do tempo que o trabalhador/trabalhadora permanecer neste, o baixo salário, a falta de prazer na execução das tarefas (seja pela carga da força bruta utilizada, seja pela rotina massificante das tarefas, seja pelas relações de trabalho autoritárias, disciplinadoras e alienantes, seja pelo eterno medo do desemprego a qualquer momento), a falta de perspectivas no que diz respeito às políticas públicas na área da saúde, educação, habitação, geração de renda e produção, a falta de uma previdência justa, poderiam ser alguns dos fatores importantes na avaliação deste caso de desânimo, desesperança, resignação, apatia, enclausuramento, alcoolismo, degradação humana, etc.
Da mesma forma, fez-se necessário reformular nossas ações/concepções, sempre tendo como horizonte nossa colaboração/participação na perspectiva da construção e fortalecimento da cidadania, tentando não substituir o marasmo inoperante, que se instalou por alguns meses, por um assistencialismo disfarçado ou por um paternalismo alienante (12).
Como chegar até o/a morador/a ? Como conhecê-lo/a subjetivamente ? Como falar sua língua ? Essas eram as indagações que mais instigavam o grupo a continuar neste trabalho
UMA PARADA, UMA REFLEXÃO...
Tem-se plena convicção de que a participação da Comunidade Universitária na construção da organização popular e cidadã é plenamente factível. Para isto é necessário não impor conhecimentos, idéias, soluções, mas sim respeitar, estar disposto a conhecer, a apreender e a trocar com as comunidades:
"...é possível aprofundarmos as relações entre Universidade e Movimentos Populares, desde que, da parte de ambos, haja decisão política, seriedade e planejamento de ações a partir da realidade e com efetiva participação dos interessados..." (GÖRGEN, 1996:p.48).
Através de um processo dialético/pedagógico, Universidade e Comunidade discutem as alternativas/caminhos/possibilidades possíveis para a construção de um projeto que tenha a melhoria da qualidade de vida (por exemplo, acesso aos equipamentos de consumo coletivo) como ponto fundamental, mas de forma alguma desvinculado da discussão política/econômica/social/cultural ao qual estão todos inseridos.
Neste caso, esbarrou-se em obstáculos estruturais, dos quais a Universidade Pública não pode eximir-se da discussão, cujas modificações necessárias deverão ter a participação de toda, ou da grande maioria da sociedade brasileira, pois ao que tudo indica, a situação social/econômica/política/cultural está ficando insustentável.
O caso de Logradouro indica que, em Projetos de extensão que trabalhem com comunidades carentes/excluídas, a continuidade é de extrema importância, sob pena de não alcançarmos os objetivos propostos e de tornarmos evasivos os discursos sobre cidadania.
No que diz respeito aos alunos/alunas que participaram do Projeto, percebeu-se a importância para sua formação acadêmica/profissional bem como para reflexão sobre possíveis transformações em suas vidas, por suas falas em seus relatórios (seguem-se aqui algumas falas descritas em alguns relatórios):
"Este projeto foi de importância inimaginável para mim, aqui realmente eu me deparei com a realidade, e o choque foi grande, tanto quanto o meu crescimento. Agora mais do que nunca percebo o quanto dependemos uns dos outros e da união de todos, lutando por ideais comuns, podemos conseguir muito e até mesmo o que antes parecia impossível..." (Fabíola Pietroski Acadêmica de Educação Física). "Fui, lentamente descobrindo o meu papel naquela comunidade, como estudante de Medicina: através das visitas domiciliares, do contato direto com as famílias, fui tentando orientá-las acerca de diferentes questões que eram de meu conhecimento...O trabalho em Logradouro priorizou a mobilização da comunidade na conquista de um espaço próprio a Associação Comunitária através do exercício da cidadania, do conhecimento de seus direitos e das inúmeras reivindicações que daí adviriam..." (Karina Lorenzi Marramarco Acadêmica de Medicina).
"O que eu consegui concluir é que o projeto não da somente assistência a muitos com problemas sócio/econômicos, mas sim, possibilita uma troca muito rica entre pessoas, o que torna o projeto tão importante. Passam-se dias, e vamos descobrindo que nossos objetivos iniciais de mudar, transformar, vão dando espaço ao contato extremamente pessoal e tão esquecido nos dias de hoje..." (Lisiane Antunes Cardoso Acadêmica de Artes Plásticas).
"Em Logradouro a convivência foi tão bonita e marcante que me fez perceber que havia me enganado ao citar na introdução que iríamos atuar em atividades ligadas ao nosso curso. O Projeto foi muito mais que isso, e você sentir na pele inúmeras situações as quais a Odontologia mesmo com toda sua grandeza jamais me permitiria passar. Mais que dentista, eu fui amigo, professor, psicólogo, jogador de futebol, enfim eu entrei no mundo deles, e assumi o papel que precisasse para que a relação de confiança fosse estabelecida e só assim eu pude desenvolver meu objetivo de realizar ações de saúde bucal a nível de prevenção e orientação..." (Rodrigo Viali dos Santos Acadêmico de Odontologia).
"Logradouro, longe de ser um caso perdido, tem perspectivas de futuro. Mas para tanto, faz-se necessário o acompanhamento permanente dos agentes da UFRGS. Esperamos poder participar da continuidade do processo social, acompanhá-lo. Como já dissemos, partimos sentido saudades. Foi, sem sombra de dúvida, uma experiência inesquecível. Não somente o fato de conhecermos pessoas interessantes, que vivem sob outro contexto social, bem como os colegas das outras áreas da Universidade. Mergulhamos, todos nos extensionistas, em uma realidade totalmente diferente em que vivemos..." (Carloantoni Ferrão Silva Acadêmico de Direito). "Devido a essa repercussão positiva na comunidade a continuidade do trabalho e imprescindível. Agora que já conquistamos sua confiança e respeito temos condições de abordar assuntos mais específicos, mais íntimos de acordo com a vontade deles mesmos. Já trabalhamos seu lado político, agora temos que trabalhar o bio-psico-social..." (Daniela Rodrigues Acadêmica de Enfermagem).
"Não há muito o que falar, a não ser dizer que, sem duvidas, este processo de convivência em Logradouro abriu perspectivas e apontou rumos que não se esgotam no Projeto. Antecipo a preocupação de pensarmos a possibilidade de permanência por um tempo a mais junto a Comunidade no sentido de, se possível, ainda instrumentalizar a Direção eleita e as lideranças latentes, na gestão embrionária do exercício da poder comunitário..." (Gilmar Godoy Gomes Acadêmico de Historia).
"O trabalho em Logradouro foi, pelo que posso avaliar, um dos mais intensos que já participei. Talvez devido ao grau de envolvimento com o projeto e com as ações. Foi uma das pouquíssimas vezes que pude montar uma estratégia de ação em conjunto com atividades abrangendo tantos detalhes e observações a serem feitas, consideradas. Foi cansativo mas muito recompensador..." (Maria Lúcia Nidballa dos Santos Acadêmica de Ciências Sociais).
O processo desencadeado em Logradouro, tem um longo percurso a ser trilhado pela própria comunidade. Em parte, cumpriu-se com o objetivo maior: a possibilidade da participação acadêmica em processos de organização e educação popular, mas isto é só o começo de um comprometimento mais articulado da Comunidade Universitária com os Movimento Sociais, por uma vida melhor e mais digna para todos.
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1. Técnico da Pró-Reitoria de Extensão, Profº de Educação Física, Especialista em Gestão Universitária e Educação de Adultos, membro do Núcleo Interdisciplinar de Ensino, Pesquisa e Extensão em Educação de Jovens e Adultos e do Núcleo de Economia Popular e Solidária. 2. Esta introdução é fundamentada no Projeto original e seu conteúdo é baseado na concepção que permeia os trabalhos desenvolvidos pela Pró-Reitoria de Extensão, que nos possibilita uma maior visibilidade dos objetivos deste Projeto. 3. Conforme Jurjo Torres Santomé no livro / Globalização e Interdisciplinariedade, trata-se da situação na qual, para a solução de determinados problemas sociais, se propõe a intervenção de equipes de especialistas de múltiplas disciplinas. Considera-se imprescindível analisar conjuntamente os inúmeros aspectos que qualquer fenômeno sócio-histórico apresenta. 4. Ver o livro, por exemplo, "O Processo Educativo em Paulo Freire e Pichon-Riveire" 5. Este numero de famílias aumentou significativamente em um ano, para aproximadamente 400 famílias. 6. Conforme o Sociólogo/Doutorando Álvaro Fernandes Ribeiro Neto, "equipamentos de consumo coletivo" seriam os serviços de água, luz telefone, saneamento básico, recolhimento do lixo, entre outros que interferem diretamente na qualidade de vida das populações. 7. A acadêmica Maria Lúcia Nidballa dos Santos do Curso de Ciências Sociais, tendo como orientadora a Profª Daisy Macedo de Barcellos (Antropologia/IFCH/UFRGS), foi a responsável pela pesquisa sobre esta metodologia. 8. A Profº Laura Fonseca/FACED/UFRGS, em um texto preparatório para os acadêmicos/acadêmicas que participam do Projeto Extra-Muros, do qual ela é a Coordenadora, realiza esta reflexão. 9. Este levantamento foi realizado na primeira etapa do Projeto pelos Acadêmicos/as Gilmar Gomes Godoy História e Patrícia Fernanda Aguiar Barbosa Ciências Sociais, consta no relatório geral/97 entregue ao Governo Estadual e a Prefeitura de Guaíba. 10. A relação entre escola e mercado é trabalhada por vários autores, entre eles: Paulo Freire, Louis Althusser, Pablo Gentili, Mariano Enguita, Moacir Gadotti e Gaudencio Frigoto. 11. As opções e escolhas são limitadas, o que nos leva a outra discussão: o feitiche da escolarização. Cria-se e alimenta-se a idéia de que quem estuda, seja concluindo o segundo ou terceiro graus, estaria mais apto a conseguir um emprego. A realidade de hoje nos tem mostrado que, o processo de desemprego é estrutural, isto é, a falta de investimento na Produção, gera desemprego independente do grau de escolaridade adquirido. Sobre desemprego estrutural, Ricardo Antunes Adeus ao Trabalho? Ensaios sobre as Metamorfoses e a Centralidade do Mundo do Trabalho, Trabalho e Tecnologia Dicionário Critico, Organizador Antonio David Cattani. 12. Esta observação foi realizada pelo Acadêmico de História e Técnico/Administrativo desta Universidade, Gilmar Gomes Godoy, em seu relatório.Bibliografia citada e utilizada:
ANTUNES, Ricardo. Adeus ao Trabalho? Ensaios sobre as Metamorfoses e a Centralidade do Mundo do Trabalho. São Paulo:Cortez;Campinas,1995.
CATTANI, Antonio David (Org.). Trabalho e Tecnologia Dicionário Crítico. Petrópolis: Vozes; Porto Alegre:, 1997.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Jeneiro: Paz e Terra, 1983.
----------. Cartas a Guiné Bissau. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
----------. Ação Cultural para a Liberdade e outros escritos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
----------. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários `a prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
GAYOTTO, Maria Leonor Cunha Gayotto. O Agente Social como membro do grupo in ORTH, Lucia Mathilde Endlich. O Processo Educativo em Paulo Freire e Pichon-Reverie. Petrópolis : Vozes, 1987.
GÖRGEN, Frei Sérgio Antônio. Universidade e Movimentos Populares, in Utopia e Ação. Ano 1, nº 2. Porto Alegre: UFRGS. Pró-Reitoria de Extensão, 1996.
SANTOMÉ, Jurjo Torres. Globalização e interdisciplinariedade: o currículo integrado. POA: Artes Médicas, 1998.
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