Aos amigos do IFIL
Sobre: "A Revolução das Redes" que está em www.aol.com.br/mance/rede.htm
I. Há cifras sobre o "capital excedente" no mundo atual demonstrando que de seu total apenas 8 ou 9% são reinvestidos novamente na produção. Destes 8 ou 9%, conforme estudos existentes sobre o tema, uma parte concorre para o desenvolvimento de novas tecnologias produtivas e parcela significativa restante é reinvestida na produção subjetiva do consumidor dos produtos gerados, tendo em vista a concorência entre as empresas na conquista dos mercados. O excedente restante, mais de 90% estaria especulativamente correndo por aí à procura de taxas de juros com maior rentabilidade.
Por outro lado, há partidos e organizações da sociedade civil pleiteando que tais valores excedentes - capital especulativo - seja convertido em investimento produtivo em função da inclusão dos setores sociais que estão excluídos da produção e do consumo a nível mundial [e no Brasil em particular]. Isso de daria, segundo tais setores, a partir de medidas fiscais, sob controle de estados nacionais controlados por setores democrático-populares, taxando fortemente tais capitais e convertendo tais valores em capital produtivo. Se procuraria principalmente, segundo tal raciocínio, subsidiar o desenvolvimento de micro, pequenas e médias empresas [acrescente-se, no caso brasileiro, a realização de uma Reforma Agrária associada a uma política agrícola de desenvolvimento agro-industrial a partir de cooperativas agrícolas e da agricultura familiar] que gerariam empregos, distribuíndo renda em forma de salários, viabilizando o aumento do consumo, produzindo-se excedentes sempre maiores que, por sua vez, seriam reinvestidos novamente na produção em maior escala e assim sucessivamente.... Acompanham tais propostas outras formas de organização e ampliação das bases produtivas sob controle e incentivo dos estados nacionais. Além disso, surgem já há bastante tempo, iniciativas no interior da sociedade civil, algumas dependentes de financiamento estatal, outras relativamente independentes de tais financiamentos, mas com dificuldades estratégicas de organização e desenvolvimento no sentido da auto-sustentabilidade e passíveis de perderem força ao serem recapturadas pelo modelo capitalista hegemônico.
Frente a tais projetos ou propostas aqui ditas precariamente é possível colocar algumas indagações:
Qual a garantia que se tem de que os setores excluídos da produção e do consumo (tomando consumo em sentido amplo, desde o consumo de bens materiais necessários à sobrevivência até elementos informativos, educativos e políticos) serão "incluídos" (ou "assistidos" a partir de políticas compensatórias, segundo o projeto neoliberal) por políticas públicas sob controle de estados nacionais hoje profundamente hegemonizados pelos grandes monopólios e oligopólios nacionais e multinacionais?
Serão os excluídos "incluídos" na produção e no consumo a partir da efetivação de modelos de desenvolvimento econômico e social de "base meramente produtivista" ou industrial de partidos hegemonizados internamente por burocracias de natureza sindical (corporativas?) e ainda tributários em suas concepções de uma "cultura industrial" já em vias de desaparecimento?
A propósito dos modelos de auto-gestão quais as garantias de desenvolvimento auto-sustentável de empresas geridas por trabalhadores, mas dependentes de subsídio estatal? Não seriam também tais propostas tributárias de uma "concepção produtivista" de desenvolvimento? Não careceriam tais formulações de outras mediações no sentido da organização e do desenvolvimnto auto-sustentável na iminência da falta de subsídios estatais e/ou recapturas de natureza capitalista?
Tanto as propostas que primam pela necessária participação do estado na promoção do desenvolvimento - subsidiando micro, pequenas e médias empresas - quanto os modelos de auto-gestão não estariam regredindo ao século XIX em função do escopo produtivista ou industrial de suas concepções e propostas de desenvolvimento econômico e social? Em outras palavras, a efetivação de tais projetos não se constituiria como uma retomada do velho capitalismo industrial, com suas formas de exploração do trabalho transformando os "excluídos" no sujeito histórico de tais projetos de exploração?
Considerando o item anterior como fica a questão do "tempo livre" - numa sociedade ainda produtivista onde teríamos, ainda, formas de exploração do trabalho? E as promesas da liberação do trabalhador para atividades "não-alienadas" onde o homem se reencontraria consigo mesmo através do trabalho e da distribuição de seus resultados de forma equitativa entre todos os membros da sociedade como imaginaram teóricos do socialismo?
E as novas forças produtivas desencadeadoras da denominada Terceira Revolução Industrial se fariam presentes em tais projetos de desenvolvimento concorrendo para mutações econômicas, sociais, culturais e/ou subjetivas capazes de transformar positivamente as condições de exercício das liberdades públicas e privadas?
Sobre as variadas iniciativas da sociedades civil (que se denomina de "público não-estatal") atualmente existentes, não careceriam de um sistema imunológico suficientemente complexo (funcionando como redes auto-organizadas ou auto-sustentáveis como propõem alguns) que fosse suficiente no sentido de neutralizar as investidas do modelo capitalista hegemônico?.
2. In: "A Revolução das Redes" que está em www.aol.com.br/mance/rede.htm. consta que trata-se "de uma proposta de conectar unidades produtivas em redes gerando um movimento autopoiético de expansão de valor, possibilitando incorporar à produção e consumo os segmentos que estão sendo excluídos pelo capital. Trata-se de uma estratégia anti-capitalista centrada na produção econômica, articulada com ações políticas e culturais". Com efeito, em uma sociedade que progressivamente deixa de ser industrial, avançando rapidamente para uma sociedade de serviços alavancada pela "informação" há que se procurar novas formas de pensar a vida, o trabalho e a práxis. Considero, nesse sentido, que a proposta contida em "A Revolução das Redes" é de se pensar. A consideração do consumo determinando a produção e sua relação com as dimensões de subjetividade compõem um leque bastante complexo de questões que - como demonstrado no texto aqui citado - é de grande importância.
Considerando a proposta de "A Revolução das Redes" e o tipo de sociedade que se desenha atualmente, a velha separação entre o público e o privado, por exemplo, muda de figura. Na medida em que se tem "consciência" de que se está trabalhando para si mesmo e, ao mesmo tempo, gerando valores que concorrerão para a potencialização da rede, tal atividade produtiva já implica - por seu escopo estratégico - ação política e cultural! Destrói-se a alienação no trabalho tal como propuseram os socialistas, a partir do próprio movimento de qualificação subjetiva (produtiva!) e não de forma a posteriori com a liquidação do Estado e da propriedade privada... . Nesse contexto a crítica do consumo talvez seja ou deva ser a mediação "básica" da proposta já que tal implica o questionamento das "finalidades" da própria atividade humana concreta tomada em qualquer de seus aspectos.
Aos amigos do IFIL
Gostaria que o texto acima contribuísse de alguma forma para a discussão da temática de "A Revolução das Redes" ventilada nessa lista!
Um grande Abraço!
Vanderlei Luiz Trindade
Março / 1999